15.12.12

Convidei para jantar... Um paraíso perfumado!





Caminho pelas ruas sinuosas a observar cada pormenor dos velhos e históricos edifícios, a exalar o perfume das flores, a sentir a brisa fresca da manhã no meu rosto… Detenho-me, extasiada, junto à escadaria de N. Sr.ª da Conceição e fico a imaginar se, e só se, os engenheiros militares responsáveis pela fortificação da vila nos séculos XVII e XVIII tivessem revestido este belíssimo exemplar barroco com azulejos… 



O edifício é deslumbrante e a vista de cortar a respiração. Observo extasiada os verdes pomares nas várzeas da ribeira de Cadavais e as casas em banda, de traço oriental, do Bairro do Rossio, mais além o imponente cabeço do Castelo, chamado de Velho por ser islâmico e anterior ao castelo da vila. Os meus olhos seguem o curso do rio e vislumbram, enternecidos, o reflexo do casario branco de Sanlucar de Guadiana, a imponente torre da igreja de S. Salvador, passam pelos telhados vermelhos da vila velha e deparam-se com as muralhas do castelo, que se destacam altivas e de pedra à vista no meio das casas de um branco imaculado, e vislumbram os primeiros movimentos da manhã; uma janela que se abre timidamente, o cantar tímido do galo, um cão a ladrar, e depois logo mais alguns se juntam numa sinfonia desafinada, o ruído de um motor… Saio do transe, sem saber há quanto tempo estou ali, parada a observar, a ouvir, a deliciar-me com o acordar lento da vila. 


Caminho inebriada rumo às Portas de Mértola. Demoro-me um pouco junto aos painéis de azulejos e a minha mente viaja, a relembrar fragmentos do passado; a apanha da azeitona nas manhãs frias de inverno, o farnel saboroso que a minha avó carinhosamente preparava, o deitar o pão, o partir a amêndoa nas tardes frescas de verão, os aromas dos bolinhos de banha a saírem do forno… As lágrimas teimam em aparecer. Sacudo a cabeça para afastar a tristeza e sigo pelo caminho do Pocinho, junto aos pomares e hortas da vila, até à praia fluvial. Está deserta nesta manhã gélida de Outono.




Cumprimento o Sr. José Manuel que já está na lide e sigo para o pomar do Sr. Francisco para apanhar as verdejantes, luzidias e aromáticas folhas de laranjeira. Fico entregue aos meus botões e pergunto-me se haverá paraísos na terra. Depois, olho em volta e o meu coração acelera, a minha boca fica seca e os meus olhos arregalados com tanta beleza. Chego à feliz conclusão de que, se há paraísos na terra, Alcoutim é um deles.

Alcoutim… Uma vila que acorda todas as manhãs e se aprimora no espelhado, límpido e calmo rio Guadiana, que deambula feliz e deslumbrante pelas estreitas e sinuosas ruelas de calçada de xisto e revela todos os dias novos e encantadores recantos, edifícios luzidios e alvos, que nos confiam primorosos episódios da sua história, pomares que exalam aromas inconfundíveis e nos presenteiam com frutos suculentos e coloridos, que despertam os cinco sentidos e nos transportam para outros tempos…

Sim, Alcoutim é o paraíso do nordeste algarvio, que se mira nas calmas águas do grande rio do sul, se diverte a cuscar com a vizinha Sanlucar de Guadiana, que revela aos transeuntes o seu passado e confessa aos habitantes os seus sonhos e aspirações.



Termino a agradável tarefa e, com a roupa impregnada de um suave aroma a laranjeira, retomo o caminho de volta pela vereda das hortas, rumo à ponte de Cadavais. Passo pela capela da Misericórdia e paro junto à inscrição que marca a altura a que as cheias chegaram no distante ano de 1876. Imagino a catástrofe e o desespero da população que fugiu em pânico para a parte mais alta da vila e se refugiou na Ermida de N. Sr.ª da Conceição.

Chego à renovada Praça da República e passo distraída junto ao painel introdutório da Exposição Alcoutim, terra de fronteira. O primeiro de seis que, em conjunto com os audioguias, dão aos visitantes um vislumbre da história desta pequena e pitoresca vila, outrora importante praça de fronteira…

Rumo em direção ao rio e por instantes aprecio o traço apalaçado da Casa dos Condes, antiga residência condal e de uma beleza singela mas imponente, e a beleza da escultura O Pescador, na sombra da deslumbrante e luxuriante buganvília da Capela de Santo António. Mas é o rio que me desperta a atenção. Caminho quase hipnotizada pela refrescante massa de água, vejo os canoístas a treinarem naquela fria manhã e o reflexo de Sanlucar de Guadiana e dos barcos, que salpicam o rio com pinceladas de cor.

Descanso na esplanada do quiosque para beber um café, comprar o jornal, saber as novidades e desfrutar das vistas. O meu coração acalma e os meus sentidos ficam mais despertos, ansiosos por absorver tudo o que me rodeia.

Depois de um emocionante começo de mais um dia, sigo rumo a casa para preparar o jantar em honra de tão ilustre convidada, Alcoutim. É e será sempre a convidada de honra à minha mesa e hoje vou servir deliciosos e frescos produtos da época: como entrada temos azeitonas britadas, presunto, chouriço e queijo, como prato principal umas deliciosas Migas de espargos com entremeada frita e para terminar um guloso Nogado em aromáticas folhas de laranjeira.


Migas de espargos




Ingredientes:
(para 4 pessoas)
1 Pão de véspera
3 dentes de Alho
400 g de espargos selvagens
Azeite q.b.
Água q.b.


Modo de preparação:
1. Corte o pão em fatias finas e reserve.
2. Lave os espargos, retire-lhes os espinhos e coza-os em abundante água temperada com sal. Depois de cozidos, pique-os grosseiramente e reserve.
3. Leve ao lume uma caçarola com o azeite e os três dentes de alho. Deixe alourar os alhos, disponha as fatias de pão em camadas, junte os espargos e alguma água da sua cozedura e com uma colher de madeira mexa até desfazer bem o pão. Quando o pão estiver desfeito vá dando voltas (como nas omeletes) até absorver a água e fritar bem. Se for necessário junte mais azeite.
4. Acompanhe com entrecosto, entremeada ou costela frita ou grelhada e uma caneca de café de cevada.



Nogado






Ingredientes:
(para 12 pessoas)
3 ovos
3 c. sopa de azeite
Farinha q.b.
¼ de litro de mel


Modo de preparação:
1. Apanhe, lave e seque as folhas de laranjeira. Reserve.
2. Parta os ovos numa tigela e deite farinha até os ovos aceitarem. Envolva tudo, formando uma bola. Deite o azeite e amasse até este ser absorvido. Amasse até a massa ficar tenra e convenientemente ligada.
3. Molde a massa em rolos e corte em bocados de 1 cm. Coloque-os em cima de uma toalha de pano, tape-os e deixe levedar por algumas horas.
4. Num tacho junte o mel e deixe levantar fervura. Frite os pequenos bocados de massa no mel e disponha-os nas folhas de laranjeira.



É com um prazer redobrado que o Sabores com Tempo participa na 9ª edição do maravilhoso projeto Convidei para Jantar…, criado pela Ana, do blogue Anasbageri, que tem como tema Uma cidade ou país do nosso coração, magnificamente escolhido pela anfitriã desta edição Marmita, do delicioso blogue Marmita, com Alcoutim, umas migas de espargos e umas aromáticas folhas de Nogado.



E para vos abrir ainda mais o apetite, um vídeo sobre Alcoutim:







Um




3 comentários:

  1. Oh que maravilha.. mesmo na recta final :) O nosso sul ainda não tinha cá chegado nada do sul.. Adorei, que post completo e que receitas perfeitas, saudades do verão :) beijo

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  2. Querida Manuela,

    A-DO-REI esta tua participação !
    Magnifica...
    Ao ler-te quase entrei no teu transe... no transe de alguém que tanto ama o local e que transmite essa paixão de forma tão eloquente !

    As migas e a entremeada estão com um aspecto divinal, de babar, eu que as adoro e como sempre que vou de visita a paragens mais a Sul, e desconhecia o Nogado mas adorei ver, o aspecto é fabuloso !

    Aplausos para Ti ! :-)

    Beijinhos

    Isabel
    www.blogdochocolate.com
    http://brisa-maritima.blogspot.pt

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  3. Gostei muito, foi bom viajar cá dentro
    beijinho

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