Caminho pelas ruas sinuosas a observar cada pormenor dos
velhos e históricos edifícios, a exalar o perfume das flores, a sentir a brisa
fresca da manhã no meu rosto… Detenho-me, extasiada, junto à escadaria de N.
Sr.ª da Conceição e fico a imaginar se, e só se, os engenheiros militares
responsáveis pela fortificação da vila nos séculos XVII e XVIII tivessem revestido
este belíssimo exemplar barroco com azulejos…
O edifício é deslumbrante e a vista de cortar a respiração.
Observo extasiada os verdes pomares nas várzeas da ribeira de Cadavais e as
casas em banda, de traço oriental, do Bairro do Rossio, mais além o imponente cabeço
do Castelo, chamado de Velho por ser islâmico e anterior ao castelo da vila. Os meus olhos seguem o curso do rio e vislumbram,
enternecidos, o reflexo do casario branco de Sanlucar de Guadiana, a imponente
torre da igreja de S. Salvador, passam pelos telhados vermelhos da vila velha e
deparam-se com as muralhas do castelo, que se destacam altivas e de pedra à
vista no meio das casas de um branco imaculado, e vislumbram os primeiros
movimentos da manhã; uma janela que se abre timidamente, o cantar tímido do
galo, um cão a ladrar, e depois logo mais alguns se juntam numa sinfonia
desafinada, o ruído de um motor… Saio do transe, sem saber há quanto tempo
estou ali, parada a observar, a ouvir, a deliciar-me com o acordar lento da
vila.
Caminho inebriada rumo às Portas de Mértola. Demoro-me um
pouco junto aos painéis de azulejos e a minha mente viaja, a relembrar
fragmentos do passado; a apanha da azeitona nas manhãs frias de inverno, o
farnel saboroso que a minha avó carinhosamente preparava, o deitar o pão, o
partir a amêndoa nas tardes frescas de verão, os aromas dos bolinhos de banha a
saírem do forno… As lágrimas teimam em aparecer. Sacudo
a cabeça para afastar a tristeza e sigo pelo caminho do Pocinho, junto aos
pomares e hortas da vila, até à praia fluvial. Está deserta nesta manhã gélida
de Outono.
Cumprimento o Sr. José Manuel que já está na lide e sigo
para o pomar do Sr. Francisco para apanhar as verdejantes, luzidias e
aromáticas folhas de laranjeira. Fico entregue aos meus botões e pergunto-me se
haverá paraísos na terra. Depois, olho em volta e o meu coração acelera, a
minha boca fica seca e os meus olhos arregalados com tanta beleza. Chego à
feliz conclusão de que, se há paraísos na terra, Alcoutim é um deles.
Alcoutim… Uma vila que acorda todas as manhãs e se aprimora
no espelhado, límpido e calmo rio Guadiana, que deambula feliz e deslumbrante
pelas estreitas e sinuosas ruelas de calçada de xisto e revela todos os dias
novos e encantadores recantos, edifícios luzidios e alvos, que nos confiam
primorosos episódios da sua história, pomares que exalam aromas inconfundíveis
e nos presenteiam com frutos suculentos e coloridos, que despertam os cinco
sentidos e nos transportam para outros tempos…
Sim, Alcoutim é o paraíso do nordeste algarvio, que se mira
nas calmas águas do grande rio do sul, se diverte a cuscar com a vizinha
Sanlucar de Guadiana, que revela aos transeuntes o seu passado e confessa aos
habitantes os seus sonhos e aspirações.
Termino a agradável tarefa e, com a roupa impregnada de um
suave aroma a laranjeira, retomo o caminho de volta pela vereda das hortas,
rumo à ponte de Cadavais. Passo pela capela da Misericórdia e paro junto à
inscrição que marca a altura a que as cheias chegaram no distante ano de 1876. Imagino
a catástrofe e o desespero da população que fugiu em pânico para a parte mais
alta da vila e se refugiou na Ermida de N. Sr.ª da Conceição.
Chego à renovada Praça da República e passo distraída junto
ao painel introdutório da Exposição Alcoutim, terra de fronteira. O primeiro de
seis que, em conjunto com os audioguias, dão aos visitantes um vislumbre da
história desta pequena e pitoresca vila, outrora importante praça de fronteira…
Rumo em direção ao rio e por instantes aprecio o traço
apalaçado da Casa dos Condes, antiga residência condal e de uma beleza singela
mas imponente, e a beleza da escultura O Pescador, na sombra da deslumbrante e
luxuriante buganvília da Capela de Santo António. Mas é o rio que me desperta a
atenção. Caminho quase hipnotizada pela refrescante massa de água, vejo os
canoístas a treinarem naquela fria manhã e o reflexo de Sanlucar de Guadiana e
dos barcos, que salpicam o rio com pinceladas de cor.
Descanso na esplanada do quiosque para beber um café,
comprar o jornal, saber as novidades e desfrutar das vistas. O meu coração
acalma e os meus sentidos ficam mais despertos, ansiosos por absorver tudo o
que me rodeia.
Depois de um emocionante começo de mais um dia, sigo rumo a
casa para preparar o jantar em honra de tão ilustre convidada, Alcoutim. É e será
sempre a convidada de honra à minha mesa e hoje vou servir deliciosos e frescos
produtos da época: como entrada temos azeitonas britadas, presunto, chouriço e queijo, como prato
principal umas deliciosas Migas de espargos com entremeada frita e para
terminar um guloso Nogado em aromáticas folhas de laranjeira.
Migas de espargos
Ingredientes:
(para 4 pessoas)
1 Pão de véspera
3 dentes de Alho
Azeite q.b.
Água q.b.
Modo de preparação:
1. Corte o pão em fatias finas e reserve.
2. Lave os espargos, retire-lhes os espinhos e coza-os em
abundante água temperada com sal. Depois de cozidos, pique-os grosseiramente e
reserve.
3. Leve ao lume uma caçarola com o azeite e os três dentes
de alho. Deixe alourar os alhos, disponha as fatias de pão em camadas, junte os
espargos e alguma água da sua cozedura e com uma colher de madeira mexa até
desfazer bem o pão. Quando o pão estiver desfeito vá dando voltas (como nas
omeletes) até absorver a água e fritar bem. Se for necessário junte mais
azeite.
4. Acompanhe com entrecosto, entremeada ou costela frita ou
grelhada e uma caneca de café de cevada.
Nogado
Ingredientes:
(para 12 pessoas)
3 ovos
3 c. sopa de azeite
Farinha q.b.
¼ de litro de mel
Modo de preparação:
1.
Apanhe, lave e seque as folhas de laranjeira. Reserve.
2.
Parta os ovos numa tigela e deite farinha até os ovos aceitarem. Envolva tudo,
formando uma bola. Deite o azeite e amasse até este ser absorvido. Amasse até a
massa ficar tenra e convenientemente ligada.
3.
Molde a massa em rolos e corte em bocados de 1 cm. Coloque-os em cima de uma
toalha de pano, tape-os e deixe levedar por algumas horas.
4.
Num tacho junte o mel e deixe levantar fervura. Frite os pequenos bocados de
massa no mel e disponha-os nas folhas de laranjeira.
É com um prazer
redobrado que o Sabores com Tempo participa na 9ª edição do maravilhoso projeto
Convidei
para Jantar…, criado pela Ana, do blogue Anasbageri, que tem
como tema Uma cidade ou país do nosso
coração, magnificamente escolhido pela anfitriã desta edição Marmita, do
delicioso blogue Marmita, com Alcoutim, umas migas de
espargos e umas aromáticas folhas
de Nogado.
E para vos abrir ainda mais o apetite, um vídeo sobre Alcoutim:
Um





